quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

Súplica por Oração

                                                        Sermão nº 1887

Ministrado na manhã do Dia do Senhor, 21 de fevereiro de 1886, 

pelo Rev. C. H. Spurgeon, 

no Tabernáculo Metropolitano, Newington, Londres, Inglaterra

Rogo-vos, pois, irmãos, por nosso Senhor Jesus Cristo e também pelo amor do Espírito, que luteis juntamente comigo nas orações a Deus a meu favor, para que eu me veja livre dos rebeldes que vivem na Judeia, e que este meu serviço em Jerusalém seja bem-aceito pelos santos; a fim de que, ao visitar-vos, pela vontade de Deus, chegue à vossa presença com alegria e possa recrear-me convosco. E o Deus da paz seja com todos vós. Amém!

(Romanos 15.30-33)

O Apóstolo dos gentios exercia um ofício extremamente útil e glorioso, mas sua vida, de forma alguma, era fácil. Ao lermos o relato de suas lutas, perseguições e sofrimentos, ficamos nos perguntando como um único indivíduo pôde suportar tanta coisa. Ele foi um verdadeiro herói e, mesmo sendo hebreu de hebreus (Fp 3.5), foi fundador das igrejas dos gentios e mestre designado por Deus, e mal podemos imaginar o quanto devemos a ele. Quando consideramos todas as suas lutas, não é de surpreender que o apóstolo às vezes ficasse com o coração pesado e o espírito oprimido. Era assim que ele estava quando escreveu esta epístola a seus amigos cristãos em Roma. 

Para ele, era um prazer ter de ir a Jerusalém — um lugar pelo qual tinha profundo amor e respeito. Era também um grande privilégio ir e cumprimentar seus irmãos apóstolos, e um privilégio ainda maior ser portador de uma contribuição dos gentios para aliviar as necessidades dos santos em Jerusalém. Ele sentia mais alegria por essa contribuição aos crentes judeus do que se fosse por algo para si mesmo. No entanto, ele também tinha plena consciência de que havia alguns na Judeia que o odiavam com ódio mortal, os quais tentariam tirar sua vida. Ele tinha sido a grande esperança do partido judaico, mas tinha se tornado cristão; por isso, os judeus fanáticos o consideravam um apóstata da fé de seus pais. Além disso, eles sentiam um ódio especial porque ele tinha sido mais ousado que qualquer outro mestre cristão, por ter ido para os gentios e ter se livrado completamente das cadeias da lei cerimonial.  Ele também explicava com mais clareza do que qualquer outro as doutrinas da graça e a salvação pela cruz de Cristo, o que provocou ainda mais hostilidade contra ele. 

Paulo receava, ainda, que não seria bem recebido nem mesmo pelos irmãos em Jerusalém. Ele conhecia o forte sentimento conservador que havia entre os da circuncisão pela manutenção da antiga lei judaica e sabia que era um homem marcado por ter se livrado daquele elo de escravidão. Portanto, ele tinha temores quanto aos seus inimigos e dúvidas quanto aos seus amigos. Seu caso era particularmente difícil. 

  O que Paulo fez quando seu espírito ficou oprimido demais? Ele escreveu a seus irmãos, pedindo que orassem por ele. Ele pediu a seus bons amigos em Roma que elevassem o coração a Deus, com sinceridade e solidariedade, a fim de que pudesse ser preservado do duplo mal que o ameaçava. No último capítulo desta epístola aos Romanos, temos os nomes de muitos indivíduos em Roma aos quais o apóstolo apelou em especial. Não conhecemos nenhum deles, exceto Priscila e Áquila, de quem já ouvimos falar em outras partes da Bíblia; mas este grande homem, este inspirado apóstolo de Deus, que não ficava nenhum pouco atrás dos principais servos de Cristo, faz seu apelo àquelas pessoas humildes e desconhecidas, para que se empenhem junto com ele em suas orações. 

Isso me deixa encantado, pois mostra o espírito humilde do apóstolo e nos revela o grande valor que ele dava às orações de homens e mulheres desconhecidos. Ele sente que precisa daquilo que a oração deles pode fazer por ele; ele tem certeza de que, sem as suas orações, sua chance de fracasso será grande, mas que, com elas, ele terá mais força em sua empreitada. Ele vê o que a oração pode fazer e quer estimulá-la para que aja com poder.

  Não é surpreendente que um homem tão cheio da graça como Paulo peça oração a santos desconhecidos? Na verdade, não, pois a regra é que aqueles que são realmente notáveis pensem o melhor a respeito dos outros. À medida que uma pessoa cresce na graça, ela se sente mais dependente de Deus e, em certo sentido, mais dependente do povo de Deus. Seu conceito sobre si mesma diminui, enquanto seu conceito sobre os outros aumenta. Um homem próspero, com um grande negócio, é alguém que precisa de outras pessoas; ele prospera dando emprego aos outros. Quanto maior for o seu negócio, mais dependente ele será de outras pessoas. O apóstolo era, por assim dizer, um grande empreendedor para o Senhor Jesus. Ele tinha uma grande empreitada para o seu Mestre e sentia que não podia levá-la adiante sem ter a cooperação de muitos colaboradores. Não é como se ele quisesse o que os empregadores chamam de “mão de obra” para trabalhar por ele, mas ele precisava de corações que suplicassem por ele, por isso, buscou assistência em Roma. Ele escreve para pessoas a quem nunca tinha visto e pede que elas orem por ele como se implorassem pela sua própria vida. O grande apóstolo pede a Trifena e Trifosa e a Maria e Júlia que orem por ele. Sua grande empreitada precisa da ajuda delas. 

Em uma grande batalha, o nome que sobressai é o do general, mas o que ele faria sem os soldados comuns? Wellington (NT1) sempre será associado à batalha de Waterloo; mas, no final das contas, aquela foi uma batalha dos soldados. O que o comandante poderia ter feito se suas fileiras tivessem falhado? Ele poderia ter batido continência para cada subalterno e soldado raso e ter dito: “Obrigado, camarada. Sem você poderíamos não ter vencido.” Os principais problemas daquele dia em Waterloo vieram de certos aliados meio duvidosos, que vacilaram no momento da batalha — eles eram o ponto fraco do general; no entanto, sua força e esperança estavam naqueles regimentos que eram como uma fortaleza contra o inimigo. Da mesma forma, os fiéis são a nossa alegria e poder; mas os inconstantes, nossa tristeza e fraqueza. 

Todo ministro do Senhor Jesus Cristo está na mesma condição de Paulo. É bem verdade que estamos em nível inferior e nosso trabalho é em menor escala, mas nossas necessidades são exatamente as mesmas. Não temos todas as virtudes que Paulo tinha, mas, por isso mesmo, fazemos um apelo ainda mais dramático a vocês, amigos e companheiros, usando a mesma linguagem e clamor do apóstolo: “Nós rogamos, pois, irmãos, por nosso Senhor Jesus Cristo e também pelo amor do Espírito, que lutem conosco nas orações a Deus a nosso favor.”

  Chamo sua atenção para este texto com o profundo desejo de poder viver mais intensamente em suas orações. As orações de milhares de santos que me amam no Senhor são para mim motivo de grande alegria. Sou profundamente grato pelas súplicas afetuosas de milhares de pessoas que não conheço pessoalmente, às quais meus sermões impressos são enviados semanalmente. Sou devedor, não só aos amados que me cercam, mas também a um grupo muito maior no mundo inteiro. Eles são meu consolo, minha riqueza e minha força. É a todos eles que me dirijo neste momento. Amados, preciso mais do que nunca das suas orações. Tenho cada vez mais consciência do seu valor; não deixem de orar por mim. Neste momento, preciso de uma graça em particular, e espero que alguns daqueles que me apoiam há muito tempo me deem uma ajuda especial nesta hora. Não sou digno de usar a mesma linguagem do apóstolo Paulo, mas não conheço nada melhor e minha necessidade é ainda maior do que a dele; portanto, tomo emprestadas as suas palavras e digo: “Rogo-vos, pois, irmãos, por nosso Senhor Jesus Cristo e também pelo amor do Espírito, que luteis juntamente comigo nas orações a Deus a meu favor.”

  Há duas coisas em nosso texto: um pedido de oração e uma bênção — “E o Deus da paz seja com todos vós. Amém”.

  I. Primeiramente, há um pedido de oração. Veremos o pedido do apóstolo como um todo e, depois, examinaremos os detalhes que são mencionados no verso trinta e um.

  Em primeiro lugar, há um pedido de oração ao povo de Deus em termos gerais. O pedido é para ele mesmo — “que luteis juntamente comigo nas orações a Deus a meu favor”. Ele conhece sua própria fraqueza, conhece a dificuldade do trabalho a que fora chamado, ele sabe que, se falhar em sua empreitada, será um triste fracasso, prejudicial à igreja ao longo dos séculos. Ele clama: “Lutem por mim”, pois sente que muita coisa depende dele. É como um homem que está disposto a lidar com um caso desesperador, mas diz a seus companheiros: “Preciso da sua ajuda”. É como alguém que está prestes a ir sozinho para um lugar distante e diz: “Vocês não vão me esquecer, não é? Por favor, pensem em mim.” 

Isso nos faz lembrar de William Carey (NT2), que disse quando foi para a Índia: “Eu entro no poço, mas o irmão Fuller e vocês precisam segurar a corda”. Será que podemos nos esquivar de um pedido como esse? Não seria traição? Abandonar alguém que mandamos para a frente de batalha é abandonar nossos companheiros de luta e vai contra a nossa própria natureza. Se escolhemos alguém para ser nosso representante no serviço de Deus, não podemos abandoná-lo. 

Não se pode acusar uma pessoa de pensar só em si mesma quando ela pede apoio e está empenhada em trabalhar para os outros, não buscando o sucesso para si, mas para uma causa maior. Quando temos grandes responsabilidades, é bom contar com a simpatia e as orações daqueles a quem servimos, e temos o direito de tê-las. Amados, se estão comigo na grande batalha por Deus e pela verdade, se me acham digno de suportar o peso dessa luta, eu lhes peço, pelo amor de Cristo, que me ajudem com sua incessante luta junto ao trono da graça. Orem por todos os ministros e obreiros, mas orem também por mim. Se me negarem isso, serei o mais miserável de todos os homens.

  Observem a afinidade de Paulo com eles quando lhes suplica: “Rogo-vos, pois, irmãos”. “Rogo-vos”. Esta é a palavra mais forte para súplica que ele pôde encontrar. É como se ele dissesse: “Eu me ajoelho diante de vocês e lhes imploro. Eu lhes peço isso como o maior favor que podem fazer por mim; como o maior sinal do seu amor; que lutem juntamente comigo nas orações a Deus a meu favor.” Ele não os chama de companheiros, colegas de trabalho ou amigos, ele se dirige a eles como irmãos. “Vocês são meus irmãos”, diz ele, “sinto amor por vocês, romanos convertidos a Deus. Meu coração deseja vê-los e, embora nunca tenhamos conversado face a face, ainda assim somos irmãos. A vida que pulsa em vocês também pulsa no meu coração; somos nascidos de novo do mesmo Pai; somos vivificados pelo mesmo Espírito; somos redimidos pelo mesmo Salvador; portanto, espiritualmente, somos irmãos. Irmãos devem orar uns pelos outros, não é?” Ele parece dizer: “Se vocês são meus irmãos, me deem um sinal da sua fraternidade. Vocês não podem ir a Jerusalém e enfrentar os perigos comigo, mas podem estar comigo em espírito e, pelas suas orações, cercar-me da proteção divina. Não peço que vocês, romanos, venham com espadas e escudos para me proteger; mas eu lhes peço, a vocês, meus verdadeiros irmãos, que, se de fato o são, lutem comigo nas orações a Deus a meu favor”. 

Se há na igreja cristã qualquer tipo de laço fraternal, todo líder, pregador do evangelho ou pastor precisa receber essa prova de amor na forma de intercessões diárias. Todo servo enviado por Deus pede a seus irmãos que lutem com ele em suas orações a Deus; e não fico atrás de nenhum deles na urgência de meus pedidos àqueles que até aqui se mostraram meus irmãos. Sei que seu amor por mim não esfriou: tenho abundantes provas disso. Ó, irmãos, ajam como meus irmãos agora e roguem ao Senhor que me abençoe.

  Mas observem o pedido feito por Paulo: “que luteis juntamente comigo” — que “agonizeis”, esta é a palavra. Nesta expressão, temos diante de nós um lembrete da grande agonia do Getsêmani, e creio que o apóstolo também tinha essa imagem diante de seus olhos. No Jardim do Getsêmani, nosso Senhor não apenas orou como de costume, mas suplicou a Deus com grande clamor e lágrimas. “E, estando em agonia, orava mais intensamente.” (Lc 22.44). Ele lutou até “seu suor se tornar como gotas de sangue caindo sobre a terra”, mas ninguém agonizou junto com Ele. Esta é uma das coisas mais sombrias daquela cena, que Ele deveria pisar o lagar sozinho, sem que ninguém estivesse com Ele (Isaías 63.3). No entanto, nosso Senhor parecia pedir ajuda e compaixão —

Três vezes Ele vai, três vezes Ele vem

Como se buscasse a ajuda de alguém.

mas não encontrou ninguém para vigiar com Ele sequer por uma hora, muito menos para agonizar com Ele. O apóstolo sentia que a agonia era demais para ele, por isso, pede de modo comovente: “Rogo-vos, pois, irmãos, que agonizeis juntamente comigo nas orações a Deus a meu favor”. Ora, assim como os discípulos deveriam ter se compadecido do Salvador e compartilhado da Sua dor horrenda, mas não o fizeram, o mesmo pode acontecer conosco. Contudo, irmãos, tenho fé de que essa infidelidade ao Mestre não se repetirá em relação a Seus servos. 

Cabe a todos os que são verdadeiros irmãos em Cristo, quando virem alguém com o coração aflito por causa de Cristo e das almas, unir-se a ele em oração e serem irmãos de verdade. Quando as lutas se intensificam, as dificuldades se multiplicam, o coração desanima e as forças faltam, é aí que a pessoa precisa lutar com Deus, e seus irmãos devem lutar a seu lado. 

Quando viram que as mãos erguidas de Moisés traziam bênção, Arão e Hur tiveram de mantê-las no alto ao perceber que seus braços estavam cansados (Ex 17.11-12). Quando vemos Jacó lutando no vau do Jaboque, devemos voltar para ajudá-lo a deter o anjo da aliança. Se um único homem pôde detê-lo, dizendo: “Não te deixarei ir se não me abençoares”. (Gn 32.26), com certeza um grupo de umas vinte pessoas poderia cercá-lo e receber a bênção mais rapidamente. E uma centena, então, o que não faria? Precisamos experimentar o poder da oração feita em agonia. Será que ainda não sabemos o que isso significa? Vamos nos unir como um só homem e clamar: “Ó, anjo, cujas mãos estão repletas de bênçãos, não te deixaremos ir, a menos que nos dês a tua própria bênção, a bênção da tua aliança”. Se duas pessoas estiverem de acordo sobre qualquer coisa a respeito do reino, elas serão ouvidas; mas, e se centenas e milhares de fiéis forem uma só mente e uma só boca nessa questão? Não haveria imediatamente um clamor diante de Deus: “Seja sobre nós a graça do Senhor, nosso Deus; confirma sobre nós as obras das nossas mãos, sim, confirma a obra das nossas mãos”. (Sl 90.17)? 

Vejam, Paulo não pede uma oração que se perde em eloquência, mas uma oração sincera, cheia de força e energia, com humilde ousadia, desejo intenso e muita seriedade; uma oração que, como uma torrente profunda e oculta, abre canal até mesmo através da rocha. Seu pedido é “que luteis juntamente comigo nas orações a Deus a meu favor”, e este também é o nosso pedido hoje.

  No entanto, ele não deseja nem por um momento se eximir de orar também, pois diz: “que agonizeis juntamente comigo”. Ele deve ser o primeiro a lutar. Esta deveria ser a posição de todos os ministros. Devemos ser exemplo de oração fervorosa. Vocês não imaginam o quanto eu gostaria que pudessem entender realmente o trabalho atribuído aos apóstolos, quando disseram que não era razoável que deixassem de pregar a Palavra de Deus para servir às mesas! (Atos 6.2). Havia uma diferença na distribuição diária de alimento para as viúvas de fala grega, e os doze declararam que não podiam cuidar desse assunto, pois, disseram eles: “nos consagraremos à oração e ao ministério da palavra”. (Atos 6.4). Para mim, isso seria o paraíso! Reparem que, pelo menos metade, ou a primeira metade, do seu trabalho consistia em oração. Ah, se essa fosse a nossa porção! Se tivéssemos tempo só para oração e meditação e ficássemos livres das mesquinharias do mundo e das pequenas divergências na vida da igreja. Ah! Se tivéssemos mais a ver com Aquele de cuja mão direita vem a bênção suprema — isso seria realmente alegria! Mas, mesmo que o apóstolo pudesse lutar assim, ele ainda não se sentia satisfeito, pois implora que os outros lutem com ele em oração a Deus. Na sua súplica, ele busca comunhão com os irmãos. 

Assim, eu também lhes peço, irmãos: venham comigo ao meu quarto secreto; entrem comigo no Santo dos Santos, para juntos nos aproximarmos do propiciatório. Ajudem-me com toda força espiritual que possuem, para podermos agonizar em oração, a fim de que a missão que agora tenho em mãos seja abençoada por Deus. Vejam o tipo de oração necessária: a oração fervorosa e eficaz de homens justos. E que o Espírito Santo fortaleça o nosso espírito, para que sejamos capazes de nos envolver nessa agonia em tempos de necessidade.

  Este é um dos versos mais intensos que já li, mesmo em um livro tão profundo quanto a Escritura Sagrada. Observem o fervor da súplica de Paulo: “Rogo-vos, pois, irmãos, por nosso Senhor Jesus Cristo.” Que argumento! Para os verdadeiros crentes, esse nome é cheio de poder. Devemos tudo a Ele, nossa alma, nossa esperança para o futuro, nossa consolação para o presente e todas as boas lembranças do passado. Não fosse por Ele, nossa vida seria pior que a morte. O amor de Cristo por nós nos constrange, pois julgamos que, se um morreu por todos, todos morreram; e morreram de tal forma que, de agora em diante, não vivem mais para si mesmos, mas para Ele (2Co 5.14-15). Assim sendo, diz Paulo, já que vocês não podem retribuir a Cristo pessoalmente, retribuam a Seu servo por meio das suas orações; juntem-se a ele em sua agonia, recordando-se daquela agonia maior à qual ninguém poderia se juntar, pela qual vocês foram redimidos da morte e do inferno. Cristãos que amam realmente a Cristo devem orar para que o Espírito Santo abençoe o ministério da Palavra. Se vocês não suplicam a Deus para abençoar o ministério pelo qual vocês mesmos foram trazidos a Cristo, certamente seu coração está endurecido. Se tenho sido um pai espiritual para vocês, não deixem de orar por mim. Vocês irão orar? Assim como amam ao Salvador a quem eu prego, suplico-lhes que, pelo amor de Jesus Cristo, lutem comigo em suas orações a Deus por mim.

  E Paulo acrescenta ainda mais um argumento — “pelo amor do Espírito”. Se o Espírito de Deus realmente os amou e lhes provou isso vivificando-os e santificando-os, então, orem por seus ministros. Se o Espírito de Deus gerou no seu coração um amor que é mais forte que uma simples afeição natural — um amor que não surgiu de um relacionamento carnal ou de uma simples ligação ou inclinação casual, mas que o próprio Espírito Santo criou e fortaleceu — então, orem por mim. Se há tal amor em vocês, um amor que não é natural e transitório, mas espiritual e, por isso, duradouro, então orem pelo servo do Senhor. Se esse amor puder perdurar, ou melhor, se ele perdurar no próprio céu, então, disse o apóstolo, eu lhes suplico, orem por mim. Irmãos, digo-lhes o mesmo. A menos que a nossa confissão seja da boca pra fora, nós amamos uns aos outros e, por isso, devemos demonstrar esse amor por meio de nossas orações de uns pelos outros. Especialmente se alguns de vocês foram trazidos ao conhecimento de nosso Senhor Jesus Cristo pelo ministério de alguém favorecido por Deus, essa pessoa deve viver para sempre em seu coração e ser lembrada em suas orações. Vocês não podem fugir da obrigação de interceder por quem os levou a Jesus. Enquanto ele viver e permanecer fiel, vocês devem tê-lo no coração e orar por ele. É assim que funciona: o amor do Espírito nos ligou uns aos outros e ninguém pode nos separar. Nossa união não é fingida, é profunda, real e verdadeira. Em Cristo, meus irmãos, foi gerada em nosso coração uma afeição mútua que nem a morte pode destruir. Jamais seremos separados. Então, pelo amor do Espírito, eu lhes suplico que lutem comigo em suas orações a Deus por mim. No versículo, cada palavra de Paulo é dita com lágrimas: nenhuma letra é desperdiçada.

  Por que o apóstolo, naquela ocasião específica, pediu aos irmãos que orassem por ele daquela forma? Não seria porque ele acreditava na providência de Deus? Ele tinha de ir a Jerusalém, onde os judeus tentariam tirar sua vida. Eles o caçavam por todos os lugares e, agora, ele estava indo direto para a cova dos leões. No entanto, ele acreditava que Deus, na Sua Providência, poderia reverter as coisas, a fim de que ele não sofresse qualquer dano na mão daqueles fanáticos sedentos de sangue, mas fosse liberto do seu poder maligno. Da mesma forma, nós também cremos que Deus atua sobre todas as coisas; por isso, oremos para que toda oposição ao Seu evangelho seja vencida.

  Paulo também acreditava que Deus pode influenciar o coração das pessoas, especialmente o coração do Seu próprio povo. Ele tinha receio de que os crentes judeus o recebessem com muita frieza, por isso, orou a Deus pedindo que Seu Espírito aquecesse o coração deles, tornando-os cheios de amor, a fim de que as ofertas enviadas pelas igrejas gregas por seu intermédio fossem aceitas e promovessem um senso de comunhão sincera entre eles e seus irmãos gentios. 

Vocês também não creem que o coração de todas as pessoas está nas mãos de Deus? Não creem na supremacia da Sua vontade sobre a vontade do homem? Não se alegram com o fato de não só haver uma Providência que dirige nossos passos, mas também um poder invisível que molda o nosso coração? Por isso, pedimos que intercedam junto a Deus para que nós também sejamos aceitos por seu povo. Queremos servi-los com fervor e desfrutar do seu carinho. É doloroso discordarmos de alguém e é um prazer estar em comunhão com todos os segmentos da igreja de nosso Senhor Jesus Cristo.  

  Além disso, o apóstolo acreditava no poder da oração de gente simples, a fim de que Deus, na Sua providência, exercesse Sua influência no coração das pessoas. Não devemos supor que a doutrina da preordenação dos acontecimentos, ou da supremacia da lei, como os filósofos a chamam, é, de alguma forma, contrária à verdade de que a oração é eficaz para sua própria finalidade e propósito. 

Certa vez, quando um soldado estava indo para a guerra para defender seu país, um pregador lhe disse: “Vou orar por você todos os dias para que seja vitorioso”. O soldado, cheio de ceticismo, respondeu que não via muito sentido nesse tipo de promessa, pois, se Deus já havia determinado a vitória, não era preciso orar e, se o destino havia decretado a derrota, não seriam as orações que a impediriam. O homem piedoso, então, de forma apropriada, lhe respondeu: “Pois se é assim, tire o capacete e a armadura e deixe de lado sua espada e seu escudo. Vá sozinho para a batalha, sem seus companheiros. Na verdade, se o Senhor vai derrotar seus inimigos, Ele pode muito bem fazê-lo sem as suas armas, e, se Ele não vai lhe dar a vitória, você nem precisa ir a cavalo.” 

O argumento do soldado, quando posto em prática, responde a si mesmo: não tem realmente força alguma. O resultado desse tipo de raciocínio seria a inércia absoluta. O bom senso nos mostra o quanto isso é absurdo. Todos os meios disponíveis devem ser utilizados, não obstante o propósito eterno de Deus, pois esse propósito inclui os meios e seus usos. Digo que a oração está entre os meios mais poderosos do mundo, e ela não pode ser negligenciada. Na vida, existem algumas forças que são determinantes e, uma delas, a qual devemos reconhecer e na qual devemos confiar, é a força do clamor dos filhos de Deus ao Pai que está no céu, ou seja, o poder da oração. Na oração, apresentamos o próprio sacrifício do Filho de Deus ao próprio Deus, e prevalecemos por meio dele. Irmãos e irmãs, pedimos suas orações sem dúvida ou hesitação. Sabemos, com certeza, que elas serão muito úteis. Pelo poder da sua oração, o poder de Deus entrará em ação e, pela força de todos, será realizado aquilo que for para a glória de Deus e para o nosso bem.

  Espero que até aqui estejam interessados; que Deus permita que sejam influenciados por estas observações e motivados à intercessão constante!

  A seguir, nosso texto apresenta uma declaração detalhada dos desejos do apóstolo. Quando oramos, precisamos atentar para coisas específicas. Há um tipo de oração que é geral e, por isso, imprecisa. É como se um regimento de soldados abrisse fogo a esmo; provavelmente alguém seria morto, mas a maioria do inimigo não seria atingida. Creio que na batalha de Waterloo não havia armas de precisão, só velhos mosquetes e, embora a batalha tenha sido vencida por nossos soldados, dizem que foi necessário tanto chumbo para matar um inimigo quanto o peso do seu corpo. Esta é uma simples figura de comparação com uma oração genérica e indistinta. Quando oramos de qualquer jeito, se for com sinceridade, receberemos algumas bênçãos; mas será preciso muito desse tipo de oração para realizarmos muitas coisas. No entanto, se suplicamos por bênçãos específicas e inconfundíveis, com fé firme e inabalável, seremos muito bem-sucedidos.

  Nosso apóstolo dá a seus amigos três motivos de oração: primeiro, ele lhes pede para ser liberto dos incrédulos que viviam na Judeia. E Ele foi liberto, talvez não da forma como esperava; mas, literalmente, ele se viu livre dos judeus incrédulos. Alguns zelotes tinham feito um juramento de que não comeriam até que o vissem morto. Assim, eles devem ter passado fome por um bom tempo, pois o braço do Império Romano estava estendido para proteger Paulo da fúria de seus compatriotas. O mais estranho foi que o poder de César serviu como escudo para o frágil servo do Deus Todo-Poderoso! Aparentemente, foram os soldados romanos que salvaram Paulo das multidões enfurecidas e dos conluios secretos; no entanto, secretamente, ele foi salvo pelos santos romanos. Oremos contra todas as formas de oposição vindas de fora.   

  Eles também deviam pedir ao Senhor que o serviço de Paulo em Jerusalém fosse bem-aceito pelos santos. Isso também lhe foi concedido; os irmãos realmente aceitaram sua embaixada. Ele encontrou pouca dificuldade; a contribuição foi aceita com muita gratidão e não se ouviu mais falar das discórdias entre os crentes judeus e gentios. O colégio apostólico em Jerusalém se esforçou bastante para criar um sentimento mais amoroso para com os irmãos gentios e, daí por diante, o reino de Cristo passou a ser de todas as raças e povos do mundo. Paulo realmente realizou muitas coisas e foi bem-sucedido em sua missão junto à igreja-mãe. Que nós também possamos ser úteis à comunidade de cristãos à qual pertencemos! Irmãos, orem para que a nossa palavra seja aceita por nossos próprios irmãos, pois alguns deles estão se desviando do caminho da verdade. 

  A seguir, eles deveriam orar para que, pela vontade de Deus, ele pudesse chegar a eles com alegria e, assim, terem juntos um tempo de refrigério. Esta era a terceira petição. É preciso observar que ela também foi ouvida, mas não respondida da forma esperada ou desejada por Paulo. Ele realmente foi ter com eles pela vontade de Deus, mas não por vontade própria. Talvez ele estivesse a caminho da Espanha, como pretendia; mas, com toda certeza, foi parar na prisão, como não pretendia. 

O primeiro motivo de oração, para que ele se visse livre dos incrédulos da Judeia, não foi respondido como se ele nunca mais fosse estar em perigo entre eles, ou fosse ter problemas com eles; ele realmente se viu livre de suas mãos quando se tornou prisioneiro do governador romano e foi levado, sob escolta, a César, a quem havia apelado. Dessa forma, ele viajou para Roma à custa do governo imperial e, ao desembarcar em Potéoli, perto de Nápoles, encontrou amigos à sua espera. E, assim que os irmãos em Roma souberam da sua chegada, enviaram um grupo para encontrá-lo na Praça de Ápio, um lugar na estrada para Roma, onde pararam para trocar os cavalos e descansar. Ali, ele viu sua oração começando a ser atendida. Mais adiante, num lugar chamado Três Vendas, mais amigos queridos de Roma foram encontrá-lo, os quais “vendo-os Paulo e dando, por isso, graças a Deus, sentiu-se mais animado”. (Atos 28.13-15). Os santos de Roma há muito esperavam pelo apóstolo e, finalmente, ele havia chegado — um embaixador em cadeias, um prisioneiro que devia ser entregue à guarda pretoriana e lá esperar pela boa vontade do imperador. Eles não esperavam vê-lo nessa situação, mas não se envergonharam das suas algemas. Eles fizeram uma viagem considerável para encontrá-lo e ele ficou satisfeito ao vê-los e, como desejava, foi reanimado pela sua companhia. Até mesmo seu aprisionamento pode ter sido um descanso para ele, pois não envolveria tanto desgaste quanto suas labutas e perseguições anteriores. 

Outro dia ficamos sabendo que a prisão de Holloway (Londres, Inglaterra) é um lugar de descanso e conforto para quem tem a consciência tranquila; e ouso dizer que Paulo deve ter achado seu confinamento em Roma mais revigorante do que qualquer outra coisa, após passar anos em labutas e fadigas. Lá, com certeza, ele estava fora do alcance de seus perseguidores, e nenhum judeu poderia tirar sua vida. Ele não precisava temer ser apedrejado enquanto estivesse sob a custódia do Império Romano; e, provavelmente, estava mais tranquilo por não ter de pregar a pessoas como os coríntios e gálatas, a quem não pediu oração, mas que lhe causaram muita aflição. Ele pediu oração aos efésios, aos filipenses, aos colossenses e aos romanos, mas dos outros ele receberia pouco benefício, pois eram muito fracos na fé e viviam atormentados com lamentáveis confusões. Preso, ele estava longe daquela gente volúvel e briguenta que estava sempre lhe dando dor de cabeça. Seu confinamento sob a guarda romana não permitiria que ele pregasse até cansar ou se esgotasse com vigílias: o soldado que o guardava o tornaria mais razoável. Por isso, não tenho dúvida de que, pela vontade de Deus, ele recebeu exatamente aquilo que pediu a seus amigos para orar: “que, ao visitar-vos, pela vontade de Deus, chegue à vossa presença com alegria e possa recrear-me convosco”. Com certeza não era da vontade de Paulo ir a Roma algemado a um soldado, mas foi assim que ele foi, pois essa era a vontade de Deus e a maneira mais segura de ter suas forças restauradas. Paulo animou os romanos, e eles o animaram, e, assim, ele teve uma estadia feliz em Roma. Deus estava com ele e ele teve o privilégio de dar testemunho de Cristo perante o imperador e fazer Jesus conhecido até mesmo da casa de César. 

Portanto, irmãos, o Senhor atendeu à oração de Seus servos. E Ele também atenderá às nossas orações, não do meu jeito, nem do seu, mas do jeito que Paulo indicou, ou seja, “pela vontade de Deus”. Portanto, ore por uma bênção, mas deixe que ela venha como o Senhor quiser, pois Ele conhece todas as coisas. Tenha certeza de que ela venha pela vontade de Deus, e então ela será conforme a nossa vontade se estivermos de pleno acordo com o Senhor, como deve ser. Deste modo, veja a eficácia da oração no caso de Paulo: embora seu desejo aparentemente não tenha sido realizado, na verdade, ele foi. Mesmo quando o Senhor parece não ouvir a oração do seu povo, Ele ouve e responde de forma muito mais plena e graciosa. Quando o Senhor nos responde com tremendos feitos em Sua justiça (Salmo 65:5), ao invés de feitos doces e suaves de bondade, Ele nos abençoa duplamente. Barcos à vela não costumam navegar com mais velocidade com vento lateral do que com vento a favor? As velas sofrem mais ação do vento lateral do que do vento de popa. O Senhor frequentemente dá ao Seu povo ventos laterais e isso acaba sendo o melhor para eles. Devemos confiar na sabedoria divina e ter certeza de que o Senhor fará por nós muito mais do que pedimos ou pensamos (Ef. 3.20).

  II. Tenho pouco tempo para falar sobre A BÊNÇÃO CONCEDIDA, a qual, na verdade, ocupa apenas um versículo do texto, e este é o menor dos quatro; por isso, posso dar a ela a devida consideração neste curto espaço de tempo. Vejam como Paulo, por mais ansioso que estivesse pela oração de seus amigos, não consegue encerrar o capítulo sem proferir uma bênção sobre eles. “Ora, o Deus da paz”. Que nome bendito! Nas Escrituras do Antigo Testamento, Ele é o “Senhor dos Exércitos”, mas não é assim que Ele é chamado no Novo Testamento. “Senhor dos Exércitos” é a forma como Deus foi revelado na antiga dispensação: na majestade do Seu poder, “O Senhor é homem de guerra; Senhor é o seu nome”. (Êxodo 15:3). Agora, no entanto, que nosso Senhor Jesus Cristo revelou de forma mais completa o Pai, nós O vemos como o “Deus da Paz”. Este título não é maior, mais doce e mais animador? Ó Deus da paz, desejamos ardentemente Tua presença entre nós!

  E o que Paulo lhes deseja? Que “o Deus da paz seja com todos vós”, não só que “a paz seja com todos vós”, mas, muito, muito mais — “o Deus da paz”, ou seja, a origem, o manancial da paz. Ele lhes deseja não apenas algumas gotas, mas a própria fonte; não apenas um raio de luz, mas o próprio sol. Ele quer que o próprio Deus seja conosco como “o Deus da paz”. Ele deseja que o Senhor nos encha de paz interior, para que não andemos preocupados. Ele deseja que o Senhor derrame Sua paz em nosso coração, para que nos sintamos em paz com Ele, para que nenhuma nuvem se interponha entre a nossa alma e o nosso Pai celestial, para que não haja motivo de discórdia entre nós e o grande Rei.

  Quando “o Deus da paz” faz paz consigo mesmo e, dessa forma, guarda a nossa mente em paz, Ele também nos ajuda a manter a paz uns com os outros, de maneira que possamos suportar os fardos uns dos outros; e aqueles que são mais fortes se dispõem a suportar as fraquezas dos mais fracos. “E o Deus da paz seja com todos vós.”

  O apóstolo diz: “o Deus da paz seja com todos vós”, não com alguns de vós — seja com Priscila e Áquila, com Maria, Amplíato, Apeles, Trifena e Trifosa, com “a estimada Pérside, que também muito trabalhou no Senhor”, com “Rufo, eleito no Senhor, e igualmente a sua mãe”, e Filólogo, Júlia, Nereu e sua irmã, Olimpas “e todos os santos que se reúnem com eles”. A bênção é: “o Deus da paz seja com todos vós”. A menos que todos estejam em paz, ninguém pode realmente estar tranquilo. Um irmão briguento pode causar problemas para a igreja toda. Alguém que se agita dentro de um barco pode atrapalhar os remadores, rasgar as velas e fazer com que a embarcação bata numa rocha. Eu não gostaria que uma bala perdida passasse perto da minha janela, pois, mesmo que todas as outras ficassem no carregador, um único tiro disparado poderia ser o meu fim. Que a paz de Deus seja com todos os santos em todas as igrejas! Que bênção bendita! É essa bênção que nós proferimos nesta manhã, de todo o coração — “Ora, o Deus da paz seja com todos vós. Amém”.

  Vocês não acham que Paulo deduz que esse será o resultado da oração deles? “Se lutarem comigo em suas orações, então o Deus da paz será com vocês”. Será que não podemos encarar isso como uma recompensa de tal oração? “Vocês oraram pelo servo do Senhor, agora Ele os abençoará com abundância de paz.” Ou será que Paulo está insinuando que esta seja a condição e a causa da verdadeira oração? Quando todos tivessem paz entre si, estivessem contentes e cheios de comunhão com Deus, então começariam a orar por Seus servos. Seja antes ou depois, que essa paz alcance todos nós e haja orações cheias de súplicas a Deus para que a Sua bênção repouse sobre a igreja e sobre o testemunho de Seus servos.

  Agora, irmãos, chegamos ao fim. Neste momento, o que mais desejo é que orem. Creio que falo em nome de todos os pregadores do evangelho de Cristo. Rogamos a vocês, amados amigos e colaboradores, que lutem conosco em nossas orações a Deus a nosso favor, para que o nosso testemunho seja poderoso e tenha bom êxito, pois os tempos são muito difíceis. Até o próprio ar está repleto de incredulidade. A terra sólida parece prestes a tremer ante a agitação política e social — uma profunda e terrível inquietação nos enche de pressentimentos sombrios sobre o futuro. A esperança do mundo está na igreja de Jesus Cristo, sob a autoridade de Deus. Por isso, irmãos, se em dias mais tranquilos vocês oraram com menos fervor, agora eu suplico que lutem por nós com Deus. Não sabemos o que está por vir. Não quero ser como Cassandra, sempre profetizando coisas ruins (NT3); mas quem, mesmo sendo um profeta tão perspicaz como Isaías, pode nos dar uma boa previsão? Os sinais dos tempos não são cheios de terror? Portanto, às suas tendas, ó Israel, e lá clamem a Deus para que a bênção venha sobre esta nação e sobre o mundo.

  As pessoas estão morrendo ao nosso redor. Qualquer que tenha sido a condição do mundo nos dias de Paulo — e, sem dúvida, deve ter sido terrível — agora não é muito melhor. A população mundial aumentou tanto desde aquela época que todos os seus problemas se tornaram mais difíceis. Hoje temos muito mais consciência da miséria de outros povos do que as pessoas podiam ter nos tempos apostólicos. Paulo conhecia muito pouco sobre o mundo, exceto sobre aquela parte que circundava o Mar Mediterrâneo: o mundo inteiro parecia caber numa casca de noz. Agora, no entanto, os geógrafos e descobridores, os navios a vapor e telégrafos trouxeram um mundo bem maior para perto de nós. Compartilhamos as tristezas da Índia; gememos sob a escuridão da África; o clamor da China bate à nossa porta e os problemas do Egito também são nossos. Se a população de qualquer lugar está sendo assolada pela fome ou oprimida, nossos jornais mostram tudo o que está acontecendo a seus leitores, e o sentimento geral é despertado. Nossa compaixão pela humanidade é muito maior do que nos tempos antigos e, por um lado, isso é bom. Por outro, no entanto, cresce a preocupação e a responsabilidade de quem pode enviar algum tipo de ajuda. Quanto maior o conhecimento, maior a necessidade de oração. “O mundo para Jesus” é o nosso lema, mas como o mundo pode ser para Jesus se a igreja de Jesus não se empenha em suas orações?

  Queridos irmãos, lembrem-se de que a verdade, por si só, se não for incutida pelo Espírito de Deus, não penetrará no coração das pessoas. Dizem que “a verdade é poderosa e prevalecerá”, mas isso é apenas metade da questão. Se colocarmos a verdade na prateleira e deixarmos que fique empoeirada, como ela servirá para as pessoas? Como a verdade desconhecida pode iluminar? Como a verdade não sentida pode renovar? Portanto, é preciso haver o pregador para chamar a atenção para a verdade. Mas, como pregarão se não forem enviados? E como serão enviados corretamente se não for pelo poder do Espírito Santo? E como podemos esperar a ação do Espírito Santo, se não pedirmos por ela? Por esse motivo, rogamos a vocês que lutem conosco em suas orações, para que o Espírito Santo possa agir com a verdade e pela verdade.

  Isso será para o seu próprio benefício. Ninguém que tenha orado fervorosamente por seu pastor ouve sua pregação sem tirar algum proveito. Os melhores ouvintes, que obtêm o melhor dele, são aqueles que mais o amam e oram por ele. Deus pode tornar nossa pregação sem sentido para quem não ora por nós. E Ele pode torná-la uma bênção para quem tiver suplicado a Ele por nós.

  Mas o argumento principal de Paulo, com o qual encerramos, é: “por nosso Senhor Jesus Cristo”. “Por nosso Senhor Jesus Cristo”, pelo amor de Deus, pelo amor do Seu nome e da Sua glória, se você honra o Pai, se permite que Jesus veja o labor da sua alma, lute conosco em suas orações pela operação divina. É assim, irmãos, vocês sabem que é assim, somos totalmente dependentes do Espírito de Deus. E, se é assim, que sem a bênção de Deus nada podemos fazer, e que a bênção é concedida quando a pedimos a Ele, então nada mais é necessário — vocês irão orar por mim e pelos outros pregadores da Palavra. Se o coração de vocês for justo, cada um irá oferecer uma oração especial, contínua e fervorosa, em particular, em família e nas santas convocações, e isso será feito com profundo fervor diante de Deus e, então, a bênção concedida será tal que mal teremos espaço para recebê-la. Senhor, ensina-nos a orar!

Tradução e revisão: Mariza Regina de Souza


NOTAS DO TRADUTOR

  1. "A Batalha de Waterloo aconteceu em 18 de junho de 1815 e ficou conhecida como a derrota final de Napoleão Bonaparte. Nessa batalha, Napoleão lutou contra as tropas lideradas pelo Duque de Wellington e por Blücher, sendo forçado a se retirar depois de ver suas tropas sucumbirem. Dias depois, renunciou e foi enviado para um novo exílio." (fonte: Brasil Escola — https://brasilescola.uol.com.br/historiag/batalha-de-waterloo.htm)

  2. William Carey, conhecido como o “pai das missões modernas”.

  3. Mitologia grega. “De acordo com a tragédia Agamenon, de Ésquilo, Cassandra era amada pelo deus Apolo, que lhe prometeu o poder da profecia se ela cumprisse seus desejos. Cassandra aceitou a proposta, recebeu o presente e então recusou ao deus seus favores. Apolo se vingou ordenando que suas profecias nunca fossem acreditadas. Ela previu com precisão eventos como a queda de Troia e a morte de Agamenon, mas seus avisos foram ignorados.”  https://www.britannica.com/topic/Cassandra-Greek-mythology, acesso em 20.05.25

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