Sermão nº 276
Ministrado na manhã de domingo, 25 de setembro de 1859, pelo
Rev. Charles H. Spurgeon
No Music Hall, Royal Surrey Gardens, Londres, Inglaterra
“O
seu coração está dividido; por isso, serão culpados”. ━ Oseias 10:2 (ARC)
Esta
passagem pode ser interpretada como se referindo ao povo de Israel enquanto
nação, mas não é menos aplicável à igreja de Deus. Este é um dos maiores e mais
graves erros da igreja de Cristo na atualidade, a qual não só está dividida em
suas crenças, e na prática dos mandamentos, mas também, ai de nós, no seu
coração. Quando as diferenças são de natureza tal que, como povo de Deus, ainda
nos amamos e ainda somos unidos na luta comum contra o mal e no objetivo comum
de edificar a igreja, há pouca coisa errada. No entanto, quando nossas divisões
doutrinárias crescem a ponto de deixarmos de cooperar uns com os outros; quando
nossas opiniões sobre meros costumes se tornam tão ácidas a ponto de não
podermos mais estender a destra de comunhão a quem diverge de nós, então,
realmente, a igreja de Deus é culpada. “Se uma casa estiver dividida contra si
mesma, tal casa não poderá subsistir” (Marcos 3:25). Até mesmo Belzebu, com
toda a sua astúcia, não pode subsistir quando seus demônios estão divididos. Se
Belzebu estiver dividido contra si mesmo, ele vai cair e, com certeza, o mesmo
ocorrerá com quem não tem a habilidade para superar a desunião. Ah, meus
irmãos, nada pode tirar tão depressa o poder e a influência da igreja, minar
suas glórias e diminuir suas chances de sucesso quanto às divisões no coração
do povo de Deus. Se quisermos entristecer o Espírito Santo e fazer com que Ele
Se vá, se quisermos provocar a ira do Altíssimo e trazer juízo sobre a igreja,
só precisamos ter um coração dividido, e tudo isso ocorrerá. Se quisermos que
cada frasco despeje o seu mal e cada vaso deixe de derramar o seu azeite, só
precisamos acalentar nossas discussões até virarem hostilidade; e acariciar nossos
ressentimentos até virarem ódio; e então o serviço estará completo. E se isso é
verdade em relação à igreja em geral, quanto mais em relação aos diversos
segmentos daquelas assim chamadas igrejas apostólicas. Ah, irmãos, a menor
igreja do mundo sempre será poderosa se tiver um só coração e uma só alma; se
pastor, presbíteros, diáconos e membros forem unidos pelo cordão de três dobras
que não se arrebenta. Só assim eles poderão se defender de qualquer ataque. No
entanto, por maior que sejam em número, por maior que seja sua riqueza, por
mais esplêndidos que sejam seus dons, eles serão sempre impotentes quando
estiverem divididos entre si. União é força. Bendito seja o exército do Deus
vivo quando sai para a batalha com uma só mente, quando o tropel dos soldados é
como o de um só homem, em marcha unida, indo direto para o ataque. Entretanto,
uma maldição aguarda a igreja que, correndo de lá para cá dividida em si mesma,
perde o sustentáculo da força com a qual deveria destruir o inimigo. A divisão
corta a corda do nosso arco, quebra nossa lança, faz nosso cavalo escoicear e
queima nossas carruagens no fogo. No momento em que o vínculo de amor é
quebrado, estamos perdidos. Quando o vínculo perfeito é dividido em dois e nós
caímos, a nossa força se vai. Pela união nós vivemos; pela desunião, expiramos.
Nesta manhã,
no entanto, pretendo abordar este texto especialmente com relação à nossa
condição individual. Vamos considerar o coração distinto, individual, de cada
pessoa. Se as divisões no grande corpo maior — se a separação entre as
diferentes partes desse corpo pode provocar desastres, muito mais desastrosa
será a divisão naquele reino especial — o coração do homem. Se houver um
tumulto civil na cidade de Alma-humana[1], mesmo sem um ataque do
inimigo aos seus muros, sua posição se torna bastante vulnerável. Se a ilha de
Man[2]
for governada por dois reis, ficará desorganizada e logo será destruída.
Portanto, hoje eu me dirijo àqueles de quem se pode dizer: “O seu coração está
dividido; por isso, serão culpados”. E assim, vou lhes pedir, em primeiro
lugar, para observar a terrível doença;
em segundo, seus principais sintomas;
em terceiro, seus tristes efeitos; e,
em quarto, suas futuras consequências.
1. Observe, então, que o nosso texto descreve uma DOENÇA
ASSUSTADORA. O coração deles está dividido. Digo que é assustadora, e isso logo
se tornará evidente, porque a primeira coisa a ser observada é a sua sede, onde
ela está alojada. Ela afeta uma região vital. Não é apenas um ferimento na mão,
que pode ser tratado com um curativo; não é uma dor no pé, que pode ser
amenizada com uma imobilização; não é um simples problema no olho, que só
precisa de um tapa-olho para protegê-lo da luz. É uma doença numa região vital
— o coração; uma região tão importante que afeta a pessoa toda. Até as
extremidades sofrem quando o coração está infectado, principalmente quando está
infectado a ponto de ficar dividido. Não há força, nem paixão, nem motivação,
nem princípios que não sejam afetados quando o coração está doente. É por isso
que Satanás, cuja astúcia é incessante, se esforça para atacá-lo. Ele lhe dará
uma mão, se você deixar; e você poderá ser uma pessoa honesta. Ele lhe dará um
olho, se deixar; e, exteriormente, você será cheio de virtudes. Ele lhe dará um
pé, se deixar; e você parecerá percorrer o caminho da retidão[3].
Mas, se deixá-lo se apossar do seu coração, se deixá-lo governar na cidadela,
ele ficará bem contente em abrir mão de todas as outras coisas. John Bunyan
descreve isso como uma das cláusulas manifestas pelo velho Diabolus ao Rei
Shaddai: “Oh!”, disse ele, “abrirei mão de tudo na cidade de Alma-humana, se me
deixares viver na cidadela do teu coração”. Certamente havia bem pouco em seus
termos e condições. Ah, mas mesmo abrindo mão de todas as outras coisas, se retiveres
o coração, reterás tudo, ó demônio! Porque do coração procedem as fontes da
vida (Provérbios 4:23).
Portanto, a doença do nosso texto é uma coisa que atinge
uma região vital, um órgão que, uma vez afetado, tende a infectar o corpo todo.
No entanto, você verá que ela não só atinge essa região vital, mas a atinge da
pior forma possível. O texto não diz simplesmente que o coração está
palpitando; nem fala que o fluxo de vida que brota dele se tornou mais fraco e
mais lento; o texto declara uma coisa muito pior, ou seja, que o coração foi
cortado em dois e está totalmente dividido. Um coração de pedra pode ser mudado
em carne, mas mudar um coração dividido seja no que for, se está dividido, não
tem mais jeito. Nada pode dar certo quando o que deveria ser um único órgão se
transforma em dois; quando uma única fonte de energia começa a mandar seu fluxo
por dois canais diferentes, gerando, assim, conflito interno e guerra. Um
coração íntegro é a vida de uma pessoa, mas se for cortado em dois, no sentido
mais extremo, profundo e espiritual, ele morre. Essa doença não só afeta uma
região vital, ela a afeta de forma letal.
No entanto,
é preciso observar mais uma coisa sobre este coração dividido: a sua própria
divisão é repugnante. Pessoas com um coração assim não se sentem impuras; na
verdade, elas convivem com todos na sociedade, se arriscam a ir à igreja, se
submetem a receber sua comunhão e a fazer parte do seu rol de membros; depois
vão e se misturam com o mundo; e não sentem que se tornaram infiéis. Elas acham
que se adaptam tanto aos cidadãos decentes do mundo quanto aos verdadeiros
cristãos. Se alguém tivesse uma mancha no rosto ou alguma doença que todo mundo
ficasse encarando, com certeza, iria se afastar do convívio das pessoas e
tentar se manter recluso. Mas não é assim com quem tem o coração dividido. A
pessoa anda por toda parte, totalmente insensível à natureza repulsiva da sua
doença. Posso mostrar como é? Pegue uma lente, dê uma olhada no coração dessa
pessoa e verá como ele é nojento, pois Satanás e o pecado estão reinando ali.
Embora a pessoa ande por aí e saiba o suficiente sobre o certo e o errado para
ficar incomodada com seu pecado, ainda tem um amor tão grande por toda sorte de
iniquidade que permite aos horríveis demônios entrar e habitar no seu coração.
Contudo, sua condição abjeta é ainda pior, pois durante todo o tempo em que
vive em pecado, ela é terrivelmente hipócrita, fingindo também ser uma filha de
Deus. De todas as coisas fedorentas que incomodam uma pessoa sincera, a
hipocrisia é a pior de todas. Se tu és mundano, sejas mundano. Se és servo de
Satanás, serve-o. Se Baal for deus, serve-o, mas não mascara o servir a ti
mesmo e ao pecado com um pretenso servir a Deus. Mostra-te como és, arranca tua
máscara. A igreja não foi concebida para ser um baile de máscaras. Aparece em
tuas verdadeiras cores. Se preferes servir no santuário de Satanás, que todos
saibam disso, mas se desejas servir a Deus, serve-O, e faze-o de coração,
sabendo que Ele é Deus zeloso e prova o mais íntimo do coração dos filhos dos
homens (Jr. 11:20). Um coração dividido é uma doença terrivelmente repugnante.
Se alguém fosse reconhecido só por causa dela, até o pior dos perversos não
iria querer ter nada com ele. Às vezes, conheço gente assim. Certo homem fingia
ser religioso e frequentava regularmente o lugar de culto, mas um dia foi visto
entrando em um salão de má reputação. Assim que caiu na farra, com as piores
intenções, imediatamente começou a ser observado. Até o senso de certo e errado
dos ímpios é despertado. “Sumam com esse cara daqui!” é o veredito unânime, e
ele recebe o que merece. Quando alguém tem o coração dividido — tenta fazer o
certo e o errado — servir a Deus e ao diabo — ao mesmo tempo; por isso, digo
que sua doença é tão sórdida e degradante que até as pessoas do mundo, cuja
lepra está na testa, o desprezam e odeiam, e se afastam dele.
Além disso, precisamos
observar que essa doença não é apenas repulsiva, ela é também muito difícil de
ser curada, porque é crônica. Não é uma doença aguda, que causa dor, sofrimento
e tristeza, mas é crônica, pois está arraigada na própria natureza humana. Um
coração dividido, como lidar com ele? Se fosse uma doença em qualquer outra
parte do corpo, um bisturi poderia removê-la, ou um remédio poderia curá-la.
Mas, que médico pode juntar um coração dividido? Qual cirurgião, por mais hábil
que seja, pode juntar os membros destroçados de uma alma dividida entre Deus e
Mamom (Mt. 6:24)? Esta é uma doença que penetra a própria natureza e continuará
no sangue mesmo com a administração dos melhores remédios. Na verdade, é uma
doença que nada, exceto a graça Onipotente, pode resolver. No entanto, aquele
cujo coração está dividido entre Deus e Mamom não possui graça. Ele é inimigo
de Deus, prejudicial à igreja, avesso à Palavra, um feixe pronto para a
colheita do fogo eterno. Sua doença está profundamente enraizada dentro dele e,
sem interferência, chegará a um fim terrível — sua destruição é certa.
Preciso fazer mais uma observação, depois deixarei este
ponto. Essa doença, de acordo com o texto hebraico, é muito difícil de ser
tratada, pois é uma doença aduladora. O texto pode ser interpretado desta
forma: “O seu coração os adula; por isso, serão culpados”. Existem muitos
aduladores astutos neste mundo, mas o mais perspicaz é o próprio coração do
homem. O coração humano adorna até mesmo os seus pecados. Se a pessoa é um
sovina miserável — seu coração lhe dirá que esse é o seu jeito de fazer
negócios. Se, por outro lado, ela for extravagante e esbanjar os dons de Deus
com suas vis paixões; seu coração, então, lhe dirá que ela é uma alma liberal.
O coração “põe o amargo por doce e o doce, por amargo” (Is. 5:20). É mais
“enganoso que todas as coisas”, e tão “desesperadamente corrupto” (Jr. 17:9),
que tem o descaramento de “fazer da escuridade luz e da luz, escuridade” (Is.
5:20). Ora, quando
alguém tem o coração dividido, normalmente louva a si mesmo. “Bem”, ele diz, “é
verdade que bebo um pouco demais, mas nunca deixo de fazer doações para
caridade”. “É verdade”, reconhece, “com certeza não sou a pessoa mais decente
do mundo, mas veja como frequento regulamente minha igreja”. “É verdade”,
admite, “às vezes, faço uma tramoia ou outra nos negócios, mas estou sempre
pronto a ajudar os pobres”. E, assim, ele imagina que pode apagar as marcas do
mal no seu caráter com algumas coisas boas, por isso, adula o seu coração.
Vejam como ele se sente satisfeito e contente consigo mesmo. O filho de Deus
prova seu próprio coração com a mais profunda angústia; mas essa pessoa não
conhece tal coisa. Ela tem sempre certeza de estar certa. O verdadeiro crente
se senta e examina suas contas todos os dias para ver se está realmente no
caminho do céu ou se cometeu algum erro e está enganado. Essa pessoa, no
entanto, está satisfeita consigo mesma, venda os próprios olhos e anda
deliberadamente, cantando pelo caminho, direto para sua própria destruição.
Vejo aqui algumas pessoas assim. Mas não será suficiente eu simplesmente
afirmar como ela é se o Espírito Santo de Deus não abrir seus olhos. Elas não
conseguirão reconhecer a própria imagem; e mesmo se eu fizer um retrato fiel e
pintar cada detalhe e cada traço do seu caráter, elas ainda dirão: “Mas ele não
pode estar se referindo a mim. Sou uma boa pessoa e sou muito crente; as coisas
que ele disse nada têm a ver comigo”. Sabe aquele tipo de pessoa que está
sempre de cara fechada, com o olhar muito sério, que fala com uma espécie de
sotaque meio pastoso, dando ênfase a cada palavra? Cuidado com ela! Quando
alguém tem a religião estampada no rosto, normalmente não tem quase nada no
coração. Comerciantes que colocam grandes cartazes na vitrine, geralmente têm
pouco a oferecer. O mesmo acontece com as pessoas que se dizem crente; ninguém
saberia que são religiosas, por isso, elas rotulam a si mesmas para ninguém desconfiar.
Até poderíamos pensar que são pessoas do mundo, não fosse sua aparência de
santarrões. Contudo, fingindo ser quem não são, elas acham que podem sair pelo
mundo cheias de confiança. Só espero que não pensem que podem ser aceitas
diante do tribunal de Deus e enganar o Onisciente. Ai delas! Seu coração está
dividido. Esta não é uma doença rara, apesar da sua repugnância e terrível
fatalidade. Ela é muito comum hoje em dia; dezenas de milhares de pessoas
consideradas decentes e honradas sofrem desse mal. Sua cabeça inteira está
doente e seu coração todo está fraco pelo fato de estar dividido. Essas pessoas
não têm coragem de assumir que são totalmente pecadoras e não têm sinceridade
suficiente para realmente se devotar a Deus.
2. Tendo descrito a doença, passo agora a observar seus
PRINCIPAIS SINTOMAS. Quando o coração de alguém está dividido, um dos sintomas
mais comuns é o formalismo da sua
religiosidade. Conhecemos alguns crentes que podem ser muito rigorosos quanto à
certas formas de doutrina e grandes admiradores de determinadas maneiras de
governar e administrar a igreja. Você verá que eles sentem profundo desprezo,
aversão e ódio por quem discorda das suas preferências. Muito embora algumas
diferenças sejam praticamente irrelevantes, eles se levantam e discutem por
qualquer coisa, e protegem cada prego enferrujado da porta da igreja como se
fosse um assunto de suma importância, achando que todas as sílabas da sua
crença pessoal devem ser aceitas sem discussão. “Era assim no início, por isso
tem de ser agora, e tem de ser sempre”. Vou fazer uma observação que,
provavelmente, será confirmada pela sua experiência, assim como o é pela minha:
a maioria dessas pessoas finca o pé tão ferozmente por causa da forma porque lhes faltar poder; por isso, a forma é tudo de que
podem se vangloriar. Essas pessoas não têm fé, embora tenham um credo. Elas não
possuem vida interior, por isso ocupam seu lugar com rituais externos. Será de
estranhar, então, que defendam a forma com tanta intensidade? Quem sabe como é preciosa
uma vida de santidade, quem entende a sua força, o seu poder profundamente
entranhado e arraigado no coração, também ama a forma, mas não tanto quanto ama
o Espírito. Essa pessoa aprova a letra, mas prefere a sua essência. Ela é
inteligente, e talvez pense menos na forma do que deveria, pois irá se unir
primeiro a um grupo de cristãos sinceros, depois aos outros, e dirá: “Se puder
desfrutar da presença do meu Mestre, tanto faz onde me encontre. Se puder ver o
nome de Cristo exaltado, e Seu evangelho puro anunciado, isso é tudo o que
desejo”. Não é assim com quem tem o coração dividido, cuja alma não é piedosa.
Ele é fanático ao extremo e — repito — talvez seja um pobre coitado, pois tudo
o que tem é uma concha vazia. Será de admirar, então, que esteja pronto a lutar
por ela? Você verá que muitas pessoas são extremamente formais até mesmo quanto
à nossa simples forma de culto. Elas querem tudo muito certinho, não só na
conduta reverente na casa de Deus, mas muito além disso; elas querem uma
servidão odiosa, um medo tirânico tomando conta do coração daqueles que estão
ali reunidos. Querem tudo nos mínimos detalhes e que o culto seja sempre
conduzido com certo decoro tradicional. Ora, essas pessoas, quase sempre, pouco
sabem sobre o poder da santidade, e só brigam pelas pequenas conchas porque não
têm conteúdo. Brigam pela superfície, apesar de nunca terem descoberto “as
águas das profundezas” (Dt. 33:13, NVI). Elas não conhecem o minério precioso
que se encontra nas ricas minas do evangelho, por isso, a superfície, mesmo
coberta de ervas daninhas e cardos, é suficiente para elas. Formalismo na
religião, com frequência, é um traço do caráter de alguém cujo coração está
dividido.
Todavia, talvez esse não seja o sintoma mais importante. Outra
característica do caráter de alguém cujo coração está dividido é a sua inconsistência. Você não o verá com
muita frequência, se quiser ter uma boa impressão sobre ele. E deve ficar
atento quando for procurá-lo. Se for num domingo, verá como ele é santo; mas se
for num sábado à noite — talvez descubra o quanto ele se parece com o pior tipo
de pecador. Ah, de todas as pessoas do mundo, as que mais temo, porque sei o
quanto são perigosas e enganosas, são aquelas que tentam, de todas as formas,
seguir a igreja e o mundo ao mesmo tempo. Numa hora estão no culto vespertino
entoando os sagrados hinos de Sião; noutra, em lugares malfrequentados cantando
música lasciva e profana. Num dia, estão à mesa do Senhor, noutro, à mesa dos
demônios. Primeiro, parecem trabalhar na obra junto com os filhos de Deus, em
seguida, juntam-se ao populacho para fazer o que não presta. Ah, irmãos, isso,
na verdade, é algo terrível — um terrível sinal de uma doença assustadora: se
você leva uma vida inconsistente, deve ter um coração dividido. É motivo de
alegria quando um ministro pode acreditar que nenhum dos membros da sua igreja
seja hipócrita; mas ouso dizer que, embora com a mais profunda tristeza, isso é
mais do que espero de uma igreja tão grande quanto a qual fui chamado a
pastorear. Ah, amigos, talvez alguns de vocês pratiquem certos pecados longe da
vista do seu pastor. Nenhum diácono ou presbítero ainda foi atrás de vocês.
Vocês são astutos na sua iniquidade. Talvez seu pecado seja de tal ordem que,
de forma alguma, a disciplina da igreja possa resolver. Saibam, porém, e a sua
consciência lhes dirá, que sua vida não é consistente com sua profissão de fé.
E eu lhes imploro, pelo Deus vivo, quando naquele último dia vocês e eu
estivermos face a face diante do tremendo tribunal do Senhor: desistam da sua
confissão ou sejam fiéis a ela. Parem de ser chamados cristãos ou sejam
cristãos de verdade. Busquem mais graça, a fim de poderem viver de acordo com o
exemplo do seu Mestre; ou então, eu lhes rogo — e sejam sinceros; e, se me
levam a sério, vou me alegrar quando o fizerem — desistam da sua membresia e
abandonem a sua confissão. Vida inconsistente, eu lhes digo, é sinal evidente
de um coração dividido.
Além disso, preciso mencionar
mais um sinal de um coração dividido, ou seja, a sua inconstância. Posso
descrever um personagem que talvez já tenham encontrado muitas vezes. Alguém
vai a uma reunião ou a um encontro religioso e é subitamente tomado de
entusiasmo para fazer o bem. Ele quer ser missionário no Exterior ou dedicar
seus bens à causa missionária e, durante as semanas seguintes, só falará em
missões. Algum tempo depois, ele vai a um comício político e, então, não haverá
nada mais importante para ele do que a reforma política. Na outra semana, ele é
chamado para integrar uma comissão de saneamento, e aí não existirá nada que
ele queira, a não ser o tratamento de esgoto. Religião, política, economia
social, um de cada vez, e tudo o mais precisa dar lugar àquilo que chama sua
atenção naquele momento. Essas pessoas vão primeiro em uma direção, depois em
outra. Sua religião é espasmódica. Elas são consumidas como quem é consumido
por uma febre. São sacudidas por um espasmo e logo em seguida se acalmam.
Algumas vezes estão quentes e febris, outras, frias e indiferentes. Elas se
devotam a uma religião, depois a abandonam. Isso só comprova que elas têm um
coração dividido e, aos olhos de Deus, são pessoas doentes e repulsivas, as
quais nunca verão a Sua face com alegria.
Para concluir a lista dos
sintomas: frivolidade religiosa quase
sempre é sinal de um coração dividido; e aqui me dirijo diretamente àqueles da
minha própria geração[4].
Um pecado muito comum entre os jovens é não levar a religião muito a sério ou
com reverência. Há um tipo de seriedade muito bem-vinda, principalmente a
jovens cristãos. A alegria deveria ser o alvo constante dos idosos; mas eles
tendem a ser melancólicos. Talvez um pouco de seriedade e reverência devesse
ser o alvo dos jovens crentes, cuja tendência é mais para a leviandade do que
para o desânimo. Ah, irmãos, quando falamos de coisas religiosas com
irreverência; quando citamos textos das Escrituras com zombaria; quando nos
aproximamos da mesa do Senhor como se fosse uma simples refeição; quando vemos
o batismo como uma observância comum, sem qualquer solenidade — então, receio
que estejamos evidenciando um coração dividido. E eu sei que qualquer alma consciente
da sua culpa, quando levada a conhecer realmente o amor de Cristo, sempre verá
as coisas sagradas de forma diferente. Ela não participa da mesa do Senhor com
coração leviano. Para ela, tudo parece muito solene. E, quanto ao batismo, quem
é batizado sem ter sondado seu coração, sem ter examinado seus motivos e sem a
verdadeira devoção do espírito, é batizado absolutamente em vão. Assim como o
comungante em pecado come e bebe juízo para si, aquele que é indevidamente
batizado recebe condenação em vez de bênção. Frivolidade espiritual com
frequência é sinal de um coração dividido.
3. Isso nos leva ao terceiro ponto: os tristes efeitos de um coração dividido.
Quando o coração de alguém está dividido, tudo é ruim para ele. Com relação a
si mesmo, ele é muito infeliz. Quem pode ser feliz quando tem dentro do próprio
peito forças rivais? A alma precisa encontrar um refúgio para si ou não achará
descanso. O pássaro que tenta se apoiar em dois galhos nunca terá paz, e a alma
que se esforça para encontrar dois lugares de descanso — primeiro no mundo,
depois no Salvador — nunca terá alegria ou consolo. Um coração unido é um
coração feliz; por isso, Davi disse: “une o meu coração ao temor do teu nome”
(Salmo 86:11b, ACR, Fiel). Aqueles que se entregam inteiramente a Deus são um
povo abençoado, pois descobrem que os caminhos da religião “são caminhos
deliciosos, e todas as suas veredas, paz” (Provérbios 3:17). Quem não é nem
isto nem aquilo, nem uma coisa nem outra, é sempre inquieto e infeliz. O temor
de ser descoberto e a consciência de estar errado conspiram juntos para agitar
a alma e deixá-la cheia de males, preocupação e inquietação de espírito. Tal
pessoa é, em si mesma, infeliz.
Essa pessoa também é inútil
na igreja. Qual é a sua serventia para nós? Não podemos colocá-la no
púlpito para falar de um evangelho que ela não pratica. Não podemos colocá-la
no diaconato, pois sua vida não seria condizente com servir à igreja. Não
podemos dar-lhe a responsabilidade do presbiterato por entendemos que, não
sendo uma pessoa temente a Deus, questões espirituais não devem ser confiadas a
ela. Em nenhum aspecto, essa pessoa é boa para a igreja. “Prata de refugo lhes
chamarão” (Jeremias 6:30). Seu nome pode estar inscrito no rol de membros, mas
é melhor que seja retirado. Ela pode se sentar entre nós e nos dar sua
contribuição, mas ficaríamos muito melhor sem qualquer uma das duas, mesmo que
ela duplicasse seu talento e triplicasse sua oferta. Sabemos que quem não tem o
coração íntegro e totalmente voltado para Cristo não pode fazer absolutamente
nada na igreja de Deus.
Todavia, não é somente isso;
uma pessoa assim também é perigosa para o
mundo. Ela é como um leproso que se infiltra no meio de pessoas saudáveis;
ela espalha a doença. Um bêbado é um leproso que isola a si mesmo; mas,
comparativamente, ele causa poucos danos, pois na sua embriaguez ele é como o
leproso expulso da sociedade. Sua própria bebedice grita: “Imundo! Imundo!
Imundo!” Mas o homem de coração dividido é um religioso confesso, por isso é
tolerado. Ele se diz cristão, assim, é admitido em toda a sociedade, mesmo
sendo cheio de podridão e falsidade em seu interior. E, embora externamente
seja caiado como um sepulcro, é mais perigoso para o mundo que o pior pecador.
Prenda-o! Não o deixe solto! Construa uma prisão para ele! Mas o que estou
dizendo? Se fôssemos construir uma prisão para hipócritas, Londres inteira não
seria suficiente para todas as prisões necessárias. Ah, meus irmãos, apesar da
impossibilidade de prendê-los, digo que o cão mais danado, nos dias mais
quentes, não é nem de longe tão perigoso para as pessoas quanto quem tem um
coração está dividido e corre atrás dos outros com o veneno raivoso da
hipocrisia nos lábios, contaminando e destruindo sua alma.
E essa pessoa não é apenas infeliz em si mesma, inútil
para a igreja e perigosa para o mundo, ela também é desprezível a quem quer que
seja. Quando é desmascarada, ninguém quer saber dela. Raramente o mundo a
aceita, e a igreja não terá nada para lhe dar, a não ser sua desaprovação.
A consideração mais séria a fazer, no entanto, é que tal
pessoa é reprovável aos olhos de
Deus. Para os olhos da infinita pureza, ela é um dos seres mais nefastos e
abjetos que existe. Seu coração está dividido. Um Deus puro e santo odeia,
primeiramente, o seu pecado; depois as mentiras com as quais ela procura
encobri-lo. Ah, se há um lugar onde os pecadores são mais repulsivos a Deus do
que em qualquer outro, esse lugar é na Sua igreja. Cachorro no canil está no
lugar apropriado; mas, na sala do trono está totalmente fora de lugar. Um
pecador no mundo já é ruim o suficiente, mas, na igreja, é simplesmente
abominável. Um louco no sanatório é uma criatura digna de pena, mas um louco
que não se acha louco e se imiscui entre nós para obter meios de fazer o mal,
não é apenas digno de pena, mas precisa ser evitado, e deve ser contido. Deus
odeia o pecado seja onde for, mas quando o pecado coloca seus dedos no altar
divino; quando chega e põe a mão insolente no sacrifício ali oferecido, Deus
simplesmente o abomina. De todas as pessoas, as que estão no lugar mais
provável de receber o raio mais potente, o flash mais terrível de um relâmpago,
são aquelas com um coração dividido, aquelas cuja confissão é servir a Deus
enquanto, com a alma, estão servindo ao pecado. Acautelai-vos, pecadores,
acautelai-vos, pois continuando em vosso pecado, acabareis se deparando com o
castigo; não obstante, hipócritas, atentai para os vossos caminhos, pois o
vosso pecado e as vossas mentiras trarão rápida e pavorosa destruição sobre as
vossas cabeças carolas.
4. Para concluir, preciso fazer algumas observações a
respeito do CASTIGO RESERVADO àquele cujo coração está dividido, caso não seja
resgatado por uma grande salvação.
Esforcei-me para ser fiel nesta pregação, o mais fiel que
pude, mas estou ciente de que muitos dos filhos de Deus não encontram alimento
espiritual em um sermão como este, nem é esta a minha intenção. Não é possível,
honestamente, misturar a peneira com o recipiente do evangelho. Não posso lhes
trazer, de forma satisfatória, o trigo e a peneira. Hoje estou procurando, como
ministro do evangelho, tomar a pá em minhas mãos, para limpar completamente a
eira em nome daquele que será o grande “Purgador” no último dia (Mateus 3:12).
Todos precisamos ser purificados, quer saibamos disso ou não. Mesmo os melhores
cristãos às vezes precisam se questionar quanto a seus motivos. E quando os
filhos de Deus não são alimentados, muitas vezes é melhor para eles serem levados
ao autoexame do que receberem uma preciosa promessa como alimento. Caros
ouvintes, em razão do grande número de pessoas aqui nesta manhã, será que é
possível não haver ninguém com o coração dividido? Será que toda esta
congregação é composta apenas de cristãos sinceros, verdadeiramente iluminados,
chamados e salvos? Não há ninguém que tenha se enganado de lugar, colocando-se
entre as ovelhas, quando deveria estar entre os bodes? Será que ninguém, sem
ter cometido um erro, veio a se infiltrar descaradamente entre os sacerdotes de
Deus, quando, na verdade, é adorador de Baal? Permitam-me, então, por último, a
fim de poder desempenhar fielmente minha missão, descrever as horríveis
condições de um hipócrita quando Deus vier para julgar a terra.
Lá vem ele, com a maior cara de pau; ele vem no meio da
congregação dos justos. Uma ordem parte do trono: “Ajuntai primeiro o joio!”
Ele a ouve, mas nem fica pálido. Mesmo agora, seu descaramento continua. Ele
até poderia bater na porta e dizer: “Senhor! Senhor! Abre pra mim, por favor”.
O anjo separador voa. O terror se estampa no rosto dos ímpios quando o joio é
atado em feixes e colocado à esquerda para ser queimado. Imagine o choque ainda
maior desse indivíduo quando, estando em meio a ministros, santos e apóstolos,
de repente se vê prestes a ser catado dentre eles. Com um tremendo mergulho,
como uma águia descendo das alturas, o anjo da morte cai sobre ele e o
arrebata, reivindicando sua posse. “Tu és”, diz o anjo negro, “tu és joio.
Cresceste lado a lado com o trigo, mas isso não mudou tua natureza. O orvalho
que cai sobre o trigo caiu sobre ti; o sol que brilhou sobre ele também foi
deleitoso para ti; mas ainda és joio e o teu destino continua o mesmo. Serás
atado junto com o resto para seres queimado”. Ah, meus ouvintes, que choque
será quando a mão poderosa daquele anjo o arrancar pela raiz, para levá-lo
embora; ele, que pensava ser santo, será atado no mesmo feixe de pecadores para
destruição!
E, agora, imagine como ele é recebido. Ele é trazido no
meio dos perversos — os quais anteriormente, com língua farisaica, ele havia
condenado. “Lá vem ele”, dizem eles, “aquele que nos dava ordens, o bom homem que nos dizia o que fazer,
ei-lo aqui em pessoa; finalmente ele descobriu que não é melhor do que aqueles
a quem desprezou”. Depois imagine, se tiver coragem, o calabouço íntimo, os
assentos reservados da morada de fogo e os pesados grilhões de desespero —
imagine, se puder, a terrível destruição, muito além de qualquer outra, que
tomará conta daquele que, neste mundo, enganou a igreja e desonrou a Deus, e
agora é desmascarado para a sua própria vergonha. Pecadores comuns ficam em
prisão comum, mas essa pessoa será lançada numa prisão íntima e acorrentada ao
tronco do desespero. Tremam, vocês que se dizem crentes, tremam, vocês que não
são nem uma coisa nem outra; tremam, vocês que fingem temer a Deus, mas, como
os samaritanos, adoram também aos ídolos. Oh! Tremam agora, para que o temor
não recaia sobre vocês no dia em que, sem se dar conta, desejarem ardentemente
uma rocha para se esconder ou uma montanha para se ocultar e não encontrarem
proteção do furor da ira do Deus de toda a terra.
Mas não posso deixá-los ir sem lhes falar, por um momento
ou dois, do evangelho. Talvez alguém esteja dizendo: “Pastor, meu coração não
está só dividido, ele está partido”. Ah, mas existe uma enorme diferença entre
um coração dividido e um coração partido. O coração dividido está cortado em
duas partes; o coração partido está quebrado, aos pedaços, mas ainda não está
dividido. Em certo sentido, ele está estraçalhado, no que diz respeito à sua
arrogante confiança; mas, em outro, está unido, no que diz respeito ao seu
ardente desejo de poder ser salvo. Pobre coração partido, eu não estava te censurando. É teu desejo nesta manhã
ter teus pecados removidos? Então, do
fundo do teu pobre coração partido clama: “Senhor, guarda-me da hipocrisia.
Seja eu o que for, não me deixes pensar que sou um dos teus se não sou”. Estás
sussurrando esta oração para Deus? “Senhor, faz-me realmente Teu. Coloca-me
entre os Teus filhos. Deixa-me Te chamar de Pai e não permitas que me afaste de
Ti. Dá-me um novo coração e um espírito reto; ó, lava-me no sangue de Cristo e
purifica-me. Faze de mim o que queres que eu seja e eu Te louvarei para
sempre”. Lembra-te, caro ouvinte, se esse é o desejo do teu coração, tu és hoje
chamado a crer que Cristo pode salvar-te, e quer salvar-te, e está esperando
para ser gracioso para contigo, e mais pronto a te conceder misericórdia do que
estás para recebê-la. Portanto, és ordenado a confiar nEle, pois todos os teus
pecados foram punidos nEle como teu fiador e, por causa de Cristo, Deus está
disposto a receber-te agora, e a abençoar-te agora. Achega-te a Ele nesta
manhã; eleva os teus olhos para Aquele que morreu no madeiro. Confia nAquele
que é o meu Redentor, e é também o teu Redentor; deixa o sangue que flui do Seu
lado ser recebido no teu coração. Abre as tuas feridas e dize: “Mestre, cura-as
para mim. Ó Jesus! Não conheço nenhum outro em quem confiar. Se me salvares,
jamais conhecerei outro amor. O amor do meu coração é indivisível e ele confia
somente em Ti; logo sua gratidão também será indivisível; e eu Te louvarei, a
Ti somente”. Pobre coração penitente, não me enganei ao discordar de mim mesmo,
dizendo: “Apesar do teu coração estar partido, ele não está dividido”. Traze-o
como ele está e dize: “Senhor, recebe-me pelo sangue de Cristo e deixa-me ser
Teu agora, e ser Teu para sempre, por meio de Jesus”. Amém.
Tradução: Mariza Regina de
Souza
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